segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

On hold

Enquanto não fica pronto o roteiro de "Sua Alma, Minha Palma", aquele que será um dos maiores acontecimentos cinematográficos da década, esperamos (eu e Pelé), dois lançamentos que por certo arrombarão as portas do Oscar 2009: The Wonder World of K. Gordon Murray e 2001 Maniacs: Beverly Hellbillys.

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O primeiro é um documentário sobre a carreira do referido Murray, o "cineasta da fantasia" ou "vendedor de carro usado do cinema" ou o "Barnum moderno", como preferirem, enquanto o segundo é a sequência de um remake ruim (embora com a melhor tagline da história do cinema, "your are what they eat") de um filme antológico, o que não deixa de ter seu charme.

Aliás, 2001 já era pra ter saído, mas parece que o Robert Englund tava ensebando pra aceitar. Não sei pq, já fez tanta bizonheira mesmo (e eu garanto que La Lengua Asesina é top 5 na bizonheira terrestre), uma a mais, uma a menos. Vai melhorar ou piorar algo?

Só sei que tem depoimento de H.G.Lewis no documentário e tá dando na virilha a espera.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

"Um drama cavalar"

"Um drama cavalar" - valorosa comédia de revista do ano de 1864.

As cortinas se abrem

Jorge - alguém me ajude a tirar essa pedra daqui, por obséquio?

Epitácio - mas nobre transeunte, que mal pode lhe trazer essa pedra, postada onde está, em seu caminhar?

Jorge - amigo, por certo em meu caminhar em nada ela atrapalhará, mas decerto atrapalhará a passagem dos jegues e jumentos de carga que percorrem diriamente este caminho.

Epitácio - mas se em nada atrapalha o vosso caminhar, decerto não atrapalhará o caminhar dos jegues e jumentos de carga.

Jorge - é impressão minha ou me comparas a um jumento de carga?

Epitácio - jamais! seria bastante infeliz de minha parte tecer tal consideração a seu respeito, uma vez tenho olhos e sou capaz de enxergar que não carregas carga alguma.

Jorge - Dizes então que sou um jumento de carga sem carga?

Epitácio - Digo que és jumento, mas não de carga. Um jumento de carga levaria tal pedra sem qualquer dificuldade, afinal é de carga.

Jorge - E eu digo que és uma verdadeira mula coiceira. Atacas aos outros sem qualquer pudor ou necessidade.

Epitácio - Por certo mula não sou.

Jorge - E por qual razão refutas minha ofensa?

Epitácio - Não refuto, apenas fiz uma afirmação. Pensei que até um jumento soubesse a diferença entre ambas as coisas...

Jorge - Então afirmas o que?

Epitácio - Afirmo que não sou uma mula, oras!

Jorge - E como podes ter tanta certeza disso?

Epitácio - Veja, não ando com as quatro patas no chão, não relincho e nem partilho do gosto por alfafa, assaz comum dentre as mulas.

Jorge - Mas enumeraste apenas três características...

Epitácio - Sim, mas são três características próprias, essencias do "ser mula".

Jorge - Eu também não relincho, não ando nas quatro patas e gosto muito pouco de alfafa. Como dizes então que sou um jumento?

Epitácio - Digo pois cheiras e ages como um.

Jorge - Sabes tanto sobre equinos que só podes ser um de nós.

Epitácio - Bom ponto meu amigo. Talvez todos tenhamos algo de eqüino em nós. Vejo que és jumento, mas um jumento filósofo no final das contas. Quanto a isso, não preciso mais meter os rabos entre as pernas. Adeus meu amigo jumento!

Epitácio vira-se e vai embora com o rabo balançando, feliz por ter se entendido com um parente distante.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Chá da tarde

Logo no café da manhã, Sílvio já estava inquieto, aquele seria um grande dia em sua vida acadêmica. Havia esperado quase três anos para a reunião com o professor que tanto admirava, era a chance de trabalhar ao lado de um pesquisador respeitado e, mais do que isso, um verdadeiro gênio.

Disso ele tinha a mais absoluta certeza, não se tratava de um picareta, de mais um oportunista, alguém que atingiu o posto por ocasião ou favor, o cara era realmente muito foda, tanto que seus colegas disputavam quase que a tapa a oportunidade de chamar a atenção do professor.

Na verdade, dois de seus colegas chegaram às vias de fato quando um acusou o outro de se apropriar indevidamente de um comentário inteligente feito em voz baixa, transformado em uma questão que o dito professor citou como "interessante" e abriu um pequeno e raríssimo sorriso. O episódio se transformou rapidamente em "quando A ficou com ciuminho de B por causa de uma piscadela do professor". Diz a lenda que o professor atravessa a rua quando vê um dos dois passando.

Esse era um erro que Sìlvio jamais cometera, sempre guardava pra si suas dúvidas, as estudava, esmiuçava e modificava, dez, vinte vezes se preciso fosse. Sempre acabava desistindo, se conseguia responder, julgava ser uma questão muito simples, se não encontrava explicação, julgava ser uma tolice, um caminho sem volta.

Agora o calvário de Sílvio acabou, ele achou a grande questão, aquele que abriu o sorriso do homem e o fez dizer "passe em minha sala as quatro". O professor era como um animal de rua, um movimento em falso e ele fugiria para sempre. Sílvio acreditava te-lo domesticado com uma simples pergunta. Era um plano simples, mas genial.

No meio da aula de cálculo a ansiedade já era profunda. Ora o relógio agonizava em um meio passo insuportável, ora corria a passos de gigante, deixando o pobre rapaz desesperado. O que era melhor? que o tempo voasse ou que ele tivesse alguns minutos congelados para trabalhar sua performance?

As 15:50 sua apresentação física, tão bem cuidada nos primórdios do dia, já havia se esvaido, o gel já lambuzava sua testa e o perfume já estava adocidado, a camisa clara escondia as rodelas de suor e o hálito seco era apenas uma caricatura do frescor de outrora, o que o levou a pensar a primeira frase coerente em horas "puta que pariu, fudeu, vou ter que falar com a mão na boca!"

Ao término desse raciocínio o celular vibrou em seu bolso e seu relógio/calculadora emitiu um pi pi pi pi irritante - quatro horas. Teve apenas tempo de se levantar, andar e quebrar a cabeça para ver se ainda se lembrava da importante questão que o havia levado até a porta daquela sala, uma sala comum aliás, como tantas outras na universidade, a única diferença era o nome no letreiro amarelado da década de 80:

José Eduardo M. de Assis

Por um instante, recordou-se de um pensamento que sempre teve, que gerou segundos de pleno terror, explico: ele sempre quis que o "M" fosse de "Machado", imagina só? "meu orientador é o Machado, Machado de Assis", mas o "M" era de "Moura", sim, Moura, como aquele atacante do Sport que era careca na frente e cabeludo atrás e que tinha uma leve semelhança com um palhaço. Isso o fazia rir e a idéia de entrar na sala e não segurar a gargalhada o deixava mais nervoso e com mais vontade de rir.

Mordendo os lábios e sentindo seus genitais encolhidos, Sílvio bateu na porta.

O som das três batidas na porta abafou a resposta, vinda provavelmente do fundo da sala, mas Sílvio foi capaz de ouvir um "sim?" ao longe. A entonação em forma de questão o deixou confuso, deveria entrar? Deveria responder? Após rapidíssima reflexão, preferiu a atitude que taxou de "a mais polida”:

- sou eu professor, o Sílvio!

Talvez por ser as primeiras palavras que falava em voz alta desde o começo do dia, sua voz surgiu bastante forçada, embora mole, o que, aliado ao fato de estar com a boca próxima a porta, fez com que encostasse, ainda que de forma muito leve, a língua na placa com o nome do professor.

A lambida na placa foi instantaneamente associada a uma lambida no professor e a imagem do ato físico se formou em cores vivas e contra sua vontade: como um cachorro, sua língua passeava pela roupa (um robe marrom tijolo) do professor, que acariciava atrás de sua orelha e dizia "ohh mas que lindo, obrigado!".

Brigando contra seus próprios pensamentos, Sílvio raciocinou em segundos: a carga simbólica desse ato era óbvia. Claro que após conseguir marcar essa reunião, alguns de seus colegas mais invejosos o taxaram de puxa saco e "mais um seguidor". Iria prová-los errado, ele não era "mais um" e, sendo assim, a imagem dele como um cachorrinho era irrelevante, esquecível e facilmente ignorável.

Riu baixinho da situação e de como era ridícula a forma sua insegurança se expressava. No alto da superioridade recém adquirida chegou a esticar a língua novamente, agora de propósito, para provar a si mesmo que lamber a placa não significava nada mais que lamber uma placa. "Eu posso dar um beijo de língua nessa placa se eu quiser".

Traduziu-se em uma enorme falha o ato de heróica superioridade de Sílvio e ele se sentiu como um general tolo derrotado em uma guerra ganha graças a uma canhestra manobra de pura soberba, pois ao abrir os olhos se deparou com a figura rígida do homem que tão ansiosamente esperava.

- Ah sim, é você Sílvio, entre. Disse o professor com um ar de estranheza.

Por certo esse não era o primeiro contato que desejava naquela tarde. A esta altura, já começava a acreditar que não passar vergonha já seria uma enorme conquista.

O professor era um homem com pouquíssimo senso de humor e bastante formal, clássico, como diriam alguns. Parecia portar um terno de tweed simbólico. Falava muito pouco fora da sala de aula, normalmente para corrigir alguém. Tinha um conhecimento enciclopédico infinito e ao mesmo uma bunda completamente reta, o que levava Sílvio a fazer uma associação entre bundas retas e alta inteligência e não foram poucas as vezes em que ficou na frente do espelho se contorcendo na esperança de reconhecer em si o aspecto físico que era a suposta razão do atributo mental.

Afastando todos esses pensamentos, Sílvio respondeu ao mesmo tempo em que esticou a mão para o cumprimento:

- Boas!

Sentindo-se um completo idiota, entrou na sala.

Era uma sala como tantas outras que já havia visto na universidade, o que deixou Sílvio um pouco desapontado. No fundo, no fundo, esperava ver um galpão com papéis espalhados pelo chão em meio a poças de água, maquinários mirabolantes e cabos com energia elétrica soltando faíscas, algo como Tesla encontra Emmet Brown no cenário de Highlander II.

Ao contrário, não havia nada fora do comum, uma estante com alguns livros e a escrivaninha padrão, com um computador e um vidro que aparentava ser de picles ao lado, rotulado Grandma´s pieces. Sílvio anotou mentalmente o nome, "se o professor come, deve ser gostoso", pensou.

Em frente à escrivaninha, a única exceção: uma pequenina e charmosa mesinha, cercada por quatro cadeiras com não mais que trinta centímetros de altura e decorada com uma toalha de veludo vermelho. Quatro conjuntos de xícaras e pires que pareciam ser de um plástico amarelado e antigo estavam dispostas em frente à cadeira.

A tal mesinha não chamou muito a atenção de Sílvio. Por um instante imaginou que o professor tivesse filhas, logo se lembrou que não, pois sabia que era solteiro, veio-lhe então a cabeça a idéia de que o professor recebia alunos anões mas preferiu não perguntar nada, pois não se lembrava do termo politicamente correto para descrever pessoas com baixa estatura.

O professor quebrou o silêncio, que na verdade tinha durado pouco:

- Sente-se, por favor

Sílvio sentou-se e agradeceu com um aceno de cabeça, logo em seguida lembrou-se que não pediu licença para entrar na sala. Agora era tarde demais pra isso e se deu mais um ponto negativo mentalmente.

Quando pensou em proferir as primeiras palavras, retomando o tema que o havia levado até aquela sala, o professor foi mais rápido, pediu licença e saiu da sala. Voltou em um minuto, como havia dito, com as mãos exalando o sabonete líquido do banheiro da universidade. Sílvio reconheceu o cheiro e achou que o professor tinha lavado as mãos por causa do cumprimento: “malditas mãos suadas!”.

Em seguida, finalmente pode falar.

- Então professor... gostaria de saber o que você achou da minha questão. Penso que posso desenvolver uma pesquisa inicial a respeito do tema.

Alivio! Tudo saiu como planejado, sua voz em um tom moderado, porém confiante. Sílvio foi tomado por uma euforia, leve, mas que não deixava de ser uma euforia, de tal forma que nem percebeu que o professor passava um dedinho de perfume atrás de cada lóbulo da orelha e ajeitava a gola da camisa.
A resposta do professor foi analisada em cada detalhe pelo aluno.

- Sim, acredito que sua questão tenha validade como possível início de uma pesquisa que, se poderá não se transformar em algo aprofundado, servirá como um bom suporte para os que virão a seguir.

Sensações mistas tomaram conta do corpo de Sílvio: aconchego, proximidade, distância e por fim agonia; aquela não era a resposta que ele sonhava, mas era a que ele acreditava que viria. Não havia motivo pra agonia, talvez fosse um teste para ver como reagia sob pressão.

Mentalmente, varreu seu cérebro em busca da resposta perfeita. Não teve tempo de encontrar, pois o professor subitamente se levantou da cadeira, alinhou a roupa de forma elegante e perguntou ao aluno de forma muito cordial:

- Está na hora do chá da tarde, você nos acompanha?

A explosão de alegria do rapaz foi algo comparável à alegria de um pai com o nascimento do primeiro filho. “putaqueopariu, vou tomar chá com o cara e com outros professores!”. Aquilo lhe pareceu o cúmulo da elegância acadêmica. Nada era prosaico naquele lugar. Ele havia subido um degrau na escala evolutiva!

Seu primeiro ato foi se levantar e de forma tão elegante quanto o professor, mas recebeu um sinal com a mão para que esperasse. Obedeceu, embora o tal sinal lhe trouxesse à mente a imagem do cachorrinho.

No mesmo movimento que havia mandado o aluno esperar, o professor levou as mãos à boca em forma de concha e gritou:

- Edna! Helga! Hora do chá!

Virando-se para o aluno:

- Ah essas fraulines...

Sílvio achou um pouco de graça na afetação de Moura de Assis, sabia o que era frauline, mas não sabia quem eram Helga e Edna. Talvez professoras, ou alunas, ou duas enfermeiras gostosas! Antes que uma orgia com o professor e duas enfermeiras tomasse forma, ele descobriu quem eram as moças.

O professor abriu um armário próximo à porta, lá estavam Helga e Edna, duas bonecas de plástico emborrachado, já bastante velhas, uma delas quase totalmente careca, que descobriu ser Edna pelo nome bordado no vestidinho azul marinho e a outra com um cabelo que lhe lembrou instantaneamente Tônia Carreiro, que, por exclusão, deveria ser Helga, esta com um vestido de noiva bastante surrado.

- Finalmente vocês chegaram, já estava preocupado. Não gosto que brinquem fora daqui, ainda mais nessa época. Disse o professor em tom paternal.

Em seguida, virou-se para Sílvio.

- Queira me desculpar pelo atraso das duas.

O aluno não pode deixar de sorrir e consentir com a cabeça. Afinal, o homem tinha senso de humor! No entanto, foi censurado por um olhar bastante severo do professor, que se aproximou e disse em voz baixa e firme:

- Por favor, não sorria! Atrasos não são consentidos nessa família.

Sílvio quis gargalhar, achou bastante boa a brincadeira. Acabou segurando para entrar na onda, que espécie de pupilo ele seria se não entrasse nas brincadeiras de seu mestre? Sentiu-se completamente acolhido, até mesmo confortável e falou apontando o dedo indicador:

- Sim fraulines, atrasos não são nada bonitos!

A vontade de gargalhar ficou ainda mais insuportável quando o professor novamente se dirigiu a ele em tom ríspido:

- Gostaria de lhe pedir que não se intrometesse na educação das minhas filhas.

Pediu desculpas pelo ato que afirmou ter sido impensado e absurdo, algo que jamais se repetiria.

A alegria de Sìlvio começou a adquirir contornos de ligeira preocupação quando o professor perguntou às bonecas se elas haviam lavado as mãos e, conferindo as quatro mãozinhas, deu o veredicto para que se dirigissem à mesa, o que ele mesmo fez, se abaixando e simulando a caminhada, primeiro de Edna, depois de Helga.

O aluno já não sabia como agir, não era uma pessoa criativa o bastante para continuar com aquela brincadeira por mais tempo e tinha medo de estragar tudo. Já começava a acreditar que aquilo poderia ser um teste muitíssimo bem elaborado pelo professor para testar sua personalidade ou sua rapidez de raciocínio, um processo de entrevista brilhante...

Ao ver as bonecas “andando”, finalmente entendeu o propósito da mesinha. Era nela que tomariam o chá! Acomodaram-se os três, as duas bonecas e Sílvio, de frente para onde sentaria o professor, que se dirigia novamente ao armário.

A cadeira era completamente desconfortável e o aluno imaginou que a brincadeira terminaria ali mesmo, pois o professor era muito grande para aquele objeto.

Momentos depois, Moura de Assis voltava de sua nova viagem ao armário, agora vestindo um avental, com um lenço amarrado à cabeça e dois enormes brincos de argola de pressão, segurava uma bandeja minúscula com pequenas xícaras, um bule e apetrechos para chá. Com voz fina e com um sotaque que o aluno não reconheceu, se dirigiu ao lugar que ainda estava desocupado:

- O chá está servido Doutor. Hoje temos Orange Pekoe.

Moura de Assis voltou ao armário, tirou rapidamente o aparato, voltou e se sentou de forma concisa na cadeira, que chegou a emitir um chiado como se fosse quebrar, o que não aconteceu. Imediatamente olhou para onde estava a “empregada” e falou:

- Danke Schön Zaira! pode se retirar.

Sílvio estava maravilhado: que homem! Quantos talentos escondidos atrás daquele rosto fechado!

Um pouco rabugento, o professor se dirigiu ao aluno:

- Ciganos...São ótimos serviçais mas não se vestem adequadamente.

Agora Sílvio começava a ter reais dúvidas sobre o quanto aquilo tudo era uma brincadeira ou um teste. Era inconcebível para ele que alguém achasse a vestimenta cigana inadequada.

O aparelho de chá estava à mesa, mas não havia chá nenhum. Todas as xícaras, assim como o bule, estavam vazios. Isso não impediu o professor de servir a todos, primeiro a visita.

- Tchuuuuu! Tchuuuu! Fazia o som da água escorrendo nas xícaras

- Quantas pedras de açúcar? Creme? Perguntou.

- ahnnn... não não, assim está bom. Respondeu Sílvio sem conseguir esconder a inquietação recém surgida.

O professor percebeu algo.

- Sim, claro, que absurdo, açúcar e creme no chá são para aqueles que não sabem apreciar esta bebida, mas você sabe, crianças...

Serviu as bonecas uma a uma.

- Tchuuuuuuu, ploc, ploc, ploc. Três pedras de açúcar para Helga.

- Tchuuuuuuu, ploc, ploc shuuuu. Duas de açúcar e creme para Edna.

Finalizando a rodada, serviu a si mesmo, também puro. A seguir, encaixou a alça de cada uma pequenas xícaras na mão direita de cada boneca, que aparentemente já vinham de fábrica destinada ao propósito de tomar chá, uma vez que a somente nessas mãos seus polegares e indicadores formavam um “ok” semi-aberto, enquanto seus mindinhos eram esticados, à moda fina do século XIX.

Incomodado com a situação, Sílvio resolveu tomar a palavra. Bastante desajeitado, perguntou:

- Senhor Moura de Assis, essas bonecas são suas filhas de verdade?

O professor pareceu surprese com a pergunta, até mesmo um pouco consternado.

- Sim! Como não seriam? Não notou a semelhança? Ambas são frutos do meu casamento com a Baronesa Suzy von Helgenhoffen, infelizmente já falecida em conseqüência de mofo. Ela também era uma verdadeira boneca!

Sílvio confirmava suas suspeitas: o professor acreditava que era pai daquelas bonecas. Não sabia mais o que fazer. Seria aquele homem um mentecapto?

Cortando o raciocínio do aluno, o professor continuou.

- Desculpe o silêncio de Helga, não é nada contra sua pessoa. Ela ainda está em luto profundo pela perda do noivo, o Coronel Ken Abigail Sturmfeder, da 2a brigada marinha do exército alemão, ele foi morto por um animal mitológico gigante enquanto fazia seu nado matinal na baía de plástico.

- Sei... Respondeu Sílvio visivelmente passado.

- Conseguimos capturar o agressor e mantê-lo preso a uma coleira para futuro estudo.

Retirando uma foto de sua carteira, estendeu-a ao aluno, que viu um cachorro vira-latas preso a uma coleira, com o professor trajado de soldado e batendo continência ao lado. Na boca do cachorro, era possível ver a perna de um boneco.

- Peço desculpas pela crueza da imagem... Disse Moura de Assis.

Antes que Sílvio fizesse menção de responder, o professor se mostrou irritado.

- COMO? Disse rispidamente olhando para a boneca Tônia Carreiro.

- Como não irei me orgulhar disso Helga, a ciência vem antes de tudo! Nada disso trará Ken de volta! Disse berrando. Pouco depois, bateu com força as duas mãos na mesa, derrubando a xícara de Sílvio.

Virou-se para o aluno.

- Desculpe meu destempero. A imagem do noivo estraçalhado ainda está muito presente na cabeça de Helga.

Sem fazer qualquer menção, levantou-se da mesa, pegou a boneca e mais uma vez simulou uma caminhada, desta vez até o armário. Voltou, sentou-se em seu lugar e falou.

- Onde a senhorita pensa que vai? Volte aqui frauline! E não...

Cortando a frase, levantou-se novamente, foi até o armário e bateu a porta de ferro com muita força, fazendo a mesa vibrar novamente.

Voltando ao seu lugar, terminou a frase, já desanimado:

- ...ouse bater a porta!

Novamente se levantou e voltou vestido como Zaíra, limpando o colo de Sìlvio e trocando a xícara que estava no chão por uma nova. Voltou em seguida e reassumiu seu posto.

- Desculpe... Não sei o que fazer com Helga, a morte de seu noivo está ruindo nossa relação.

Sílvio já beirava o desespero. Achava que aquela seria a grande chance de sua vida acadêmica. Ledo engano... Estava preso a uma sala junto com um homem que tinha o poder de definir seu futuro, mas que aparentava ser um completo débil mental.

Com fome, tomando chá de vento, Sílvio tentou levar a conversa para outro rumo.

- Professor, posso provar um pouco do seu picles? Ele me parece delicioso!

- Mas que picles Boaventura? Respondeu com estranheza Moura de Assis, utilizando o sobrenome do aluno, como costumava fazer em classe.

Sílvio apontou para o jarro e o olhar do professor pareceu perdido.

- mas isso não é um picles, são os restos mortais da avó das meninas!

Um calafrio percorreu a espinha do rapaz. Que desacreditando de si mesmo, perguntou:

- São os restos de sua mãe?

Moura de Assis respondeu, já se acalmando.

- Ora, claro que não, mamãe está viva e muito bem, são os restos mortais da mãe de minha falecida esposa, a também Baronesa Sandra von Helgenhoffen und Kratzlberger.

Olhando de perto, Sílvio pode ver que se tratavam realmente de restos mortais de uma boneca Barbie com algumas rugas talhadas no rosto e com as partes do corpo bastante queimadas. Claro, Grandma´s pieces, os pedaços da vovó. Aquilo não lhe surpreendeu em nada. Na verdade até esperava algo assim.

Após ouvir como se decorreu a trágica morte daquela boneca, vítima de um inocente churrasco de marshmallows, pediu desculpas pelo desconhecimento do fato e decidiu fazer uma última tentativa antes de sair correndo daquela sala.

- Essas feridas hão de cicatrizam.

A resposta animou o aluno.

- Sim, há que se trabalhar com a dor. Mas, voltemos ao seu trabalho. Orientarei-lhe em sua pesquisa, acredito que ela algum dia poderá será útil.

Os olhos de Sílvio voltaram a brilhar... Até o professor retomar a fala.

- No entanto, lhe chamei aqui para que conheças melhor minha filha Edna - apontando para a boneca parcialmente calva -. Sei que ambos estão descompromissados e devo dizer que ela teceu comentários bastante elogiosos a seu respeito. Estou disposto a permitir a união de vocês, uma vez que mostrou interesse em trabalhar ao meu lado.

Então Sìlvio entendeu. A razão de sua visita à sala do professor não era sua “brilhante idéia”, não era interesse acadêmico e sim fruto do interesse de uma boneca velha em se relacionar com ele. Por instantes se sentiu um pouco lisonjeado, afinal, haviam reconhecido sua beleza e seu charme. A boneca e o professor, que havia consentido. Sentiu-se desejado e bonito, mas logo caiu em si e tentou mais uma vez mudar o rumo da conversa, no que não foi bem sucedido.

- Professor, não sei...

O professor interrompeu.

- Deixarei ambos aqui por alguns minutos para que possa fazer a corte, mas não sejas atrevido pois Zaíra será meus olhos e meus ouvidos.

Levantou-se e foi até a porta, saiu e voltou rapidamente, foi ao armário e se trajou como a empregada, postando-se no canto da sala em silêncio, com os braços junto ao corpo e olhar fixo no rapaz.


Sílvio viu-se em uma verdadeira encruzilhada. O que fazer? Havia percebido que o sucesso de sua pesquisa estava necessariamente vinculado ao sucesso de seu relacionamento com a boneca Edna. O que uma pessoa sensata faria num momento como aquele? era a dúvida que pulsava em seu cérebro.

Respirando fundo, Sílvio fez sua decisão. Olhou nos olhos de Edna e disse.

- Fico encantado que tenhas reparado em mim, mas sou apenas um estudante, como hei de cortejar tão nobre moça.

Rapidamente, o professor tirou a roupa de Zaira, colocou-se atrás da boneca e disse com voz bastante feminina:

- Agora és apenas um estudante, mas tens um futuro brilhante à sua frente e isso já me basta!

Em seguida o professor voltou ao seu lugar como Zaíra.

Tomado de euforia, Sìlvio sabia que tinha tomado a decisão certa. Pelos próximos 15 minutos conversou abertamente com a boneca Edna, rindo de sua vaidade e de sua ingenuidade de filha mais nova, comentou a admiração que tinha por seu pai e pela elegância de sua família.

Num dado momento, o professor novamente saiu e voltou rapidamente, agora como ele mesmo, pegando ambos, Sílvio e Edna, de mãos dadas em cima da mesa.

- Vejo que já tomou as devidas liberdades Senhor Boaventura.

Sílvio, já absorvido pela fantasia, levantou-se rapidamente acenou com a cabeça e sorriu de forma sapeca para a boneca, pois esbarrou no movimento havia esbarrado os dedos em seus peitos de plásticos, coisa que o professor não havia percebido.

- Mil perdões Doutor Moura de Assis, mas perdi a compostura, sua filha é assaz bela e pretendo um dia desposa-la.

Numa explosão contida de alegria, o professor estendeu a mão a Sílvio e apertou com força.

- Noivos enfim!

Sílvio achou que tudo aquilo tinha ido muito rápido, ainda era bastante novo para ser noivo, mas deveria aceitar esse ligeiro desvio em nome de sua futura parceria com o mestre.

- Agradeço sua presença aqui, mas já está na hora de Edna se recolher. Eu também vou aos meus aposentos, pois me sinto um tanto constipado. Aguardo notícias suas, aqui está meu telefone. Próxima semana espero lhe ver Senhor Boaventura.

O professor estendeu a Sílvio um pequeno telefone de plástico verde.

Sentindo-se vivo e bem sucedido, Sílvio saiu da sala do professor, olhou a placa que havia lambido sem querer nem uma hora atrás e imaginou seu nome nela. Com confiança, estufou o peito e disse em voz baixa:

- Agora eu sou mais que um estudante do Doutor Moura de Assis! Sou da família!